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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Carolus Duran e o Museu Casa da Hera


Uma das obras mais queridas do público visitante do Museu Casa da Hera (antiga residência de uma família herdeira do áureo período cafeeiro fluminense) é o quadro de Eufrásia Teixeira Leite. Trata-se de uma pintura a óleo, pintada na França no século XIX, que retrata a elegância e a beleza da última proprietária da casa.

(Eufrásia Teixeira Leite, 1887. Carolus Duran. Museu Casa da Hera)

É claro que nós, visitantes, gostamos do todo: as flores do jardim, a paz do túnel de bambus na grande chácara, a cor viva dos papéis de parede da casa, a louça pomposa do jogo de jantar, a delicadeza dos lustres, o peso das cortinas, o luxo das roupas, o ranger da madeira antiga do piso: aquele ar inebriante de passado. Portanto, não faltam objetos que servem como suporte de memória de um tempo próspero, para adorarmos naquele museu: mas certamente é a imagem da proprietária que dá rosto àquele passado, é ela que dá alma à história da casa. A imagem de Eufrásia (financista que decuplicou a fortuna do pai e benemérita que doou o patrimônio em testamento para instituições de caridade, de ensino e de pesquisa) é o que nos faz sonhar.
Quem pintou esse quadro de fundo vermelho imponente? Será que bastaria tentar ler a assinatura do quadro (muitas vezes algo que se precisa decifrar) para saber quem foi o autor? Teria sido alguém importante? Famoso? Quais relações ele manteve com Eufrásia? Pintou outras mulheres da burguesia ou da aristocracia?
Trabalhando em um texto sobre a história do museu, recorri aos materiais já impressos sobre a história de Eufrásia e sobre a casa: não eram muitos, infelizmente. Dizia um dos antigos folhetos do IPHAN que o pintor se tratava de “Lawlis Duray”. Olhei para a reprodução do quadro e, influenciada pela tradução que a instituição mantenedora do quadro um dia informou, li a mesma coisa: “Lawlis Duray” era o que parecia ser aquela assinatura estilizada no alto, à esquerda do quadro. O “L”, porém, era uma birra minha, pois parecia estar em minúscula e bem curvilíneo. Coisa de artista, pensei.
Procurei por Lawlis Duray em livros e em artigos pela internet e não encontrei nada. Ao que parece, ele nunca existiu. Tratava-se apenas de uma decifração mal sucedida da assinatura do quadro. Mas foi a própria instituição que percebeu o erro e já o corrigiu. A assinatura diz “Carolus Duran”, informaram-me os funcionários do museu. Revi o “n” de longa perna que parecia um “y”, entendi como era fácil ser confundido por ela, e fui pesquisar quem foi Duran. Encontrei algumas referências, sempre em sites estrangeiros, e algumas imagens, mas nada que me desse a real dimensão de quem ele realmente foi. Para se ter uma ideia, o verbete sobre ele na Wikipédia brasileira só tinha data de nascimento, de morte, nome completo e nacionalidade.
Como a correção da informação sobre o nome do pintor de Eufrásia ocorreu há poucos anos, infelizmente outros materiais já haviam reproduzido o nome “Lawlis”, quando fizeram menção ao quadro: não só textos na internet, como até romances de grandes editoras. Daí reside a necessidade da precisão das informações cedidas pelos museus, pois estes, como mantenedores das obras, são quase sempre vistos como referências incontestáveis sobre seus temas. E essa simples história revela, mais uma vez, a importância da pesquisa contínua dos museus acerca de seu acervo, de seu público visitante, de sua história institucional e de seus temas.
Poucos anos depois, imaginem qual não foi minha surpresa ao deparar-me com Duran duas vezes, no mesmo dia, em Paris?! Andava pelas salas do Museu d’Orsay, quando um quadro de grandes dimensões chamou minha atenção. Era uma mulher vestida de negro, em um fundo sóbrio, lançando sua luva branca ao chão escuro, onde sabiamente o pintor assinou seu nome em vermelho, bem embaixo da luva: Carolus Duran, 1869.

(La dame au gant, 1869. Carolus Duran. Museu d'Orsay)

Levei um susto. Um quadro enorme, exposto em um dos museus mais famosos do mundo, do mesmo autor do quadro de Eufrásia, que tínhamos em um pequeno e humilde museu-casa no interior do Estado do Rio de Janeiro. Uma tela daquele mesmo autor, tão pouco conhecido dos brasileiros, que um dia foi lido como Lawlis.
Andei mais alguns passos e lá estava outro belo quadro, igualmente grande, de 1897, de sua filha mais velha na companhia de seus netos. Tentei imaginar a quantidade de obras importantes na reserva técnica do Museu d’Orsay, para entender a importância de Carolus Duran para a pintura francesa do século XIX: obviamente, se um museu com esta reserva escolheu expô-lo, é porque se tratava de alguém de peso que deveria ser mais conhecido no Brasil.


(Retrato Madame Fayedeau, 1897. Carolus Duran. Museu d'Orsay)

Ao final do dia, caminhando pelas salas do Petit Palais, outro museu de acervo conhecidamente invejável, encontro mais dois grandes quadros de Duran que quase me fizeram cair para trás. A coincidência foi tão grande, que parecia que Eufrásia estava querendo me mostrar que não havia escolhido um pintor qualquer para retratá-la, e que nós precisávamos conhecê-lo. Uma das telas representava a típica parisiense provocativa da segunda metade do século XIX, apertada por seu espartilho sob um vestido de cetim claro bem justo no corpo, deitada sobre uma chaise, onde se via cair metros de saia, franjas e bordados da barra do vestido e uma cauda. Em decote de festa, estava apoiada em almofadas vermelhas, com um olhar de extrema autoconfiança. 

(Mademoisele Lancey,1875. Carolus Duran. Petit Palais)

O outro quadro, vertical e alto, mostrava uma mulher de vestido completamente vermelho, saindo de um longo e escuro casaco de peles, em um fundo igualmente avermelhado.
Convencida de que Eufrásia escolheu um dos retratistas mais famosos de sua época para reproduzi-la, trago aqui um pouco da biografia e da obra de Carolus Duran, e as possíveis razões para o seu até então desconhecimento no mundo museal: o ostracismo humilhante a que foi submetida a pintura acadêmica do século XIX, pela crítica modernista durante grande parte do século XX. Como se vê, pelos espaços nobres que pintores como Duran agora ocupam em museus famosos, a pintura acadêmica oitocentista (anterior às vanguardas impressionistas, simbolistas e expressionistas de pintores conhecidos à exaustão, como Monet, Klimt ou Van Gogh) está finalmente em processo de revisão e de nova aceitação pela crítica da arte.

Charles Emile Auguste Durand (ou Carolus Duran, seu nome artístico), nasceu em Lille, nordeste da França, cidade próxima da fronteira com a Bélgica, em quatro de julho de 1837. Aos 11 anos iniciou seus estudos na Academia de Belas Artes de Lille, primeiro com aula de desenho com o escultor Augustin Phidias Cadet de Beaupré, depois, aos 15 anos, iniciou um curso de dois anos de pintura com François Souchon, um pupilo do consagrado pintor Neoclássico Jacques-Louis David. Deste início de formação, percebemos que Duran começou pelo o que era praxe na época: um sistema de aprendizado sólido e uniformizado, acadêmico.
O método acadêmico de ensino da arte (ou de produção da arte) podia parecer maçante, repetitivo, pouco criativo e muito hierarquizado (novos passos só eram dados quando os anteriores já estavam sedimentados), mas era um modelo de “eficiência comprovada”. Se o aluno terminasse a academia, sendo aprovado em todas as matérias, podia-se considerar alguém que sabia desenhar e pintar. A genialidade, no entanto, sempre foi e sempre será graça para poucos.
Em 1853 Duran vai para Paris, onde logo começa a adotar o pseudônimo e, entre 1859 e 1861, frequenta a Academia Suíça (uma escola de pintura mais liberal que a institucional Academia de Belas Artes). É na Academia Suíça que ele conhece o Realista Gustave Courbet, um dos revolucionários da pintura oitocentista francesa. Tornou-se amigo de outro contestador dos cânones da época: Edouard Manet. Em 1859, Duran conseguiu expor no Salão de Belas Artes pela primeira vez. De 1862 a 1866, viajou para Roma e Espanha, com uma bolsa de estudos de sua cidade natal. Seu estilo se transforma: negligencia a influência de Courbet pela de Diego Velázquez. De volta à França, foi premiado pela primeira vez com uma medalha de ouro no Salão de 1866.
Na época, os pintores submetiam seus quadros aos salões anuais (por vezes bienais) das belas artes: era a grande chance de serem vistos, comprados pelo público visitante e, acima de tudo, era o local onde almejavam receber as medalhas ou as menções honrosas do Estado francês. A honra máxima era ganhar a medalha de ouro e ter o quadro comprado pelo Estado. Os quadros medalhistas eram comprados pelo Estado e levados para o “museu dos artistas vivos”: o Museu Luxemburgo, uma honra para poucos.[1]
O Louvre, famoso tanto hoje quanto naquela época também, era um museu de artistas mortos (os já consagrados mestres). O Museu Luxemburgo era o grande show de arte contemporânea da época, pois abrigava as obras medalhistas dos artistas mais recentes ou mortos há menos de 10 anos. Depois de mais de 10 anos de falecimento, o Estado francês consideraria se era pertinente fazer a mudança das obras do Museu Luxemburgo para as salas do Louvre (honra inaudita), ou se guardava as peças nas hoje ditas reservas técnicas (fenômeno mais comum).
O Museu d’Orsay, um grande mantenedor de pinturas, esculturas e objetos de arte franceses de meados do século XIX e início do XX (um museu da “modernidade” artística francesa, muito conhecido por sua formidável coleção impressionista) diz que – cronologicamente – suas obras estão entre o Louvre (um museu de arte antiga, medieval, renascentista, barroca, neoclássica e romântica) e o Pompidou (um museu de arte moderna e contemporânea). Cronologicamente, os visitantes podem fazer um passeio pela história da arte ocidental (mas, sobretudo, história da arte francesa) desde o período antes de Cristo, até os dias de hoje (mais de dois mil anos!), percorrendo Louvre, d’Orsay e Pompidou.
O Museu d’Orsay abriga inúmeras obras medalhistas do século XIX. Sua expografia remodelada em 2011, data de seu aniversário de 25 anos, revela a história da arte francesa oitocentista, sem diminuir a produção acadêmica anterior aos grandes rompimentos vanguardistas, que o museu também continua a expor, de forma cronológica e didática em andar distinto: o quinto andar, o mais amado e buscado por todos os amantes do Impressionismo de Manet, Monet, Renoir, Pisarro, etc.
É pela opção de expor os medalhistas que encontramos obras de Carolus Duran em suas concorridas e consagradoras paredes: o quadro “Madame Feydeau” (retrato de sua filha, casada com o ator dramático Georges Feydeau, e seus netos) foi comprado pelo próprio Estado francês em 1897, no salão da Sociedade Nacional de Belas Artes. Bem antes desse, ainda no ano de 1869, o quadro “A dama de luvas”, retrato de grandes dimensões da própria esposa do artista, foi um grande sucesso na exposição do Salão de 1869, onde obteve uma medalha. Considerado pela crítica como o arquétipo do retrato formal, de corpo inteiro, a obra revela uma sobriedade na composição, destreza no desenho e delicadeza no uso restrito da gama de cores, o que lembrava Ingres. A luva que ela lançou ao chão, sublinhada pela assinatura do artista, dava uma ideia de movimento. Dava um sentido de instantaneidade moderna ao quadro. Por essas razões, Emile Zola, amigo dos pintores vanguardistas, apreciava Carolus Duran. Este quadro também foi comprado pelo Estado, alguns anos depois, em 1875.  
Medalhista de ouro em 1866, depois largamente elogiado pelo retrato de sua esposa de luvas em 1869, Carolus Duran passa a se dedicar àquilo que parecia fazer melhor e lhe dar bons frutos: retratos. Diferente de muitos pintores, hoje consagrados, mas que penaram para conseguirem sustentar-se da venda de seus quadros e alcançar sucesso em sua época, a ascensão de Duran foi meteórica, sobretudo porque ele se ligou às pessoas mais ricas e influentes da sociedade parisiense, ávidas por serem eternizadas.
Como nos diz a plaqueta explicativa do Petit Palais, ao introduzir o quadro “Retrato de madame Edgar Stern”, Carolus Duran foi o pintor por excelência da parisiense, ele representava as mulheres elegantes de seu tempo. Brilhante colorista, de audácia calculada, ele renova o retrato formal, modernizado por uma preocupação com a verdade e uma maneira de pintar livre e ampla. Seu sucesso como retratista o conduziu até aos Estados Unidos, onde pintou as famílias ricas de Nova York. Em Paris, neste quadro vermelho de 1889, ele representou a esposa do banqueiro Edgar Stern, que também era escultora. É vermelho sobre vermelho.

(Madame Stern. Carolus Duran. Petit Palais)

E por falar em quadros vermelhos, o que revela sua habilidade tanto para a delicadeza das poucas cores da “dama de luvas” assim como para a intensidade das cores quentes, não podemos esquecer o quadro de Eufrásia. Neste quadro, que só reforça o que já sabíamos dela e agora sabemos dele, Duran representa uma das mulheres ricas e elegantes da sociedade parisiense do século XIX, conhecida como “la brésilienne”: em fundo vermelho.
Em uma carta que parece ser de 1878, Eufrásia escreve ao seu amado Joaquim Nabuco que havia começado a posar para Carolus Duran: “Passei a semana a mais triste possível, como era absolutamente necessário distrair-me, comecei o meu retrato, o Carolus prometeu-me fazer um chef d’ oeuvre e disse-me que quer perder a reputação que tem, se não for este um dos seus melhores retratos, como pintura, se entende.” O quadro de Eufrásia foi terminado em 1887, como se vê pela data colocada por Duran abaixo de sua assinatura.
Ainda não é possível saber se a atribuição da data da carta está errada e, ao invés de ser de 1878[2] seria já avançada na década de 1880, ou se houve uma interrupção grande na pintura do quadro. É mais provável que a carta seja da década de 1880.
Chef d'ouevre significa obra prima, mas por muito tempo achou-se que a palavra "ouevre" estava grafada como "amour". De qualquer forma, a referência íntima sem apresentações, no trecho “o Carolus prometeu-me”, nos indica que tanto Eufrásia quanto Nabuco conheciam o pintor, talvez fosse um amigo de ambos. Alguns acreditam que Eufrásia talvez estivesse tentando enciumar Nabuco ao fazer referência, em uma carta, a posar para um pintor.
O que é certo é que Duran pintou este quadro de fundo vermelho de Eufrásia um pouco antes da grande tela escarlate da madame Stern. E o vermelho esteve presente em muitos outros quadros de Duran, em um deles até a modelo era ruiva.





Embora não seja considerado nenhum vanguardista, Duran foi respeitado por Emile Zola como alguém que inovava, ainda que na medida do gosto do grande público (que é quase sempre conservador). Segundo Zola, “Carolus-Duran é um habilidoso, ele torna Manet compreensível ao burguês, ele se inspira indo apenas às limitações conhecidas, temperando-as ao gosto do público. Acrescentem que é um técnico muito hábil, sabendo agradar a maioria”.
Se repararmos, apesar do desenho bem executado, típico do academicismo, há leves toques de uma pintura mais livre, flertes com algumas pinceladas impressionistas. Carolus-Duran foi capaz de navegar entre o academicismo e a experimentação de seus contemporâneos mais ousados, como seu amigo Edouard Manet. Ao fazer um retrato de Manet, um impressionista, Duran o fez totalmente dentro da técnica do amigo: impressionista. Ele só não inovava mais para as senhoras da elite, porque elas queriam se ver na precisão do desenho e não na impressão de um momento.


(Retrato de Edouard Manet. Carolus Duran. Museu d'Orsay.) 
(Este quadro não foi comprado pelo Estado, foi doado no século XX, quando o d'Orsay foi criado).

Carolus Duran lecionou pintura em um ateliê próprio e obteve inúmeros títulos e prêmios: Legião de Honra em 1872, oficial em 1878, comandante em 1889 e Grande Oficial em 1900. Nos anos de 1889 e 1900, foi membro do júri dessas duas Exposições Universais. Ele foi cofundador da Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1890. Foi eleito membro da Academia de Belas Artes em 1904. Foi nomeado diretor da Académie de France em Roma, em 1905, cargo que ocupou até 1913. E morreu em Paris em 1917.
Nós batemos os olhos numa assinatura de Monet e imediatamente a reconhecemos. Olhamos um Andy Warhol pendurado numa parede e sabemos quem é o autor. Ouvimos falar o nome Van Gogh e imediatamente lembramos-nos de parte de sua biografia, como seu processo de loucura, o corte da orelha, as ajudas do irmão. Vemos o sorriso da Monalisa e pronunciamos sem perceber “Da Vinci”. Esses são monstros sagrados, não os quero comparar com Duran. Mas acredito que este texto tenha trazido argumentos suficientes para que nós ao menos saibamos seu nome e tenhamos orgulho de ter um quadro seu em um museu de orçamento tão modesto, numa pequena cidade do interior fluminense: mais um dos presentes de Eufrásia, que sempre nos surpreende.
Pergunto-me se museus como o d’Orsay, o Petit Palais e os museus de Lille sabem que nós também temos um Carolus Duran: é provável que não. Uma pena, pois o intercâmbio dessas informações seria interessante, assim como a aparição do quadro de Eufrásia no sistema de busca pelo nome de Duran na internet. Que ela também seja referência de Carolus Duran para o mundo todo!





[1] Para que se pudesse sonhar com tudo isso, no entanto, era preciso primeiro ter os quadros aceitos por um júri que definia aqueles que poderiam participar do Salão. A recusa de muitos trabalhos era praxe e muita polêmica se criava. O ano de 1863 tornou-se célebre, pois três mil artistas submeteram cinco mil trabalhos a serem apresentados no Salão, que obviamente não teria espaço para tanto. As recusas começaram e o alvoroço foi tão grande, que os artistas pediram ao Imperador Napoleão III que tomasse alguma providência, pois pintores e escultores precisavam daquele espaço para dar visibilidade a seus trabalhos. Napoleão III, então, ordenou que fosse criado um segundo salão, anexo ao original, com o nome de “Salão dos Recusados”. Entre os recusados, gente que possuía coragem e audácia para testar e inovar, estavam pintores hoje consagrados, como o impressionista Edouard Manet.
[2] Afinal, esta é a carta que vem datada apenas como “Domingo”.  Atribui-se ao conturbado período “fim de 1877 e início de 1878” por causa do “domingo” aparentemente irritado, época em que Eufrásia estava irritada por Nabuco ter prometido ir vê-la, mas não compareceu, o que a obrigou a encurtar férias por nada. É interessante notar que, apesar de atribuída a 1878, existe uma marcação a lápis no alto da carta, provavelmente feita por algum funcionário da Fundação Joaquim Nabuco: “84?” A interrogação permanece.

#Museu #Belgica #Paris #Arte #CasadaHera #EufrasiaTeixeiraLeite #CarolusDuran

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O transporte público de Bruxelas: simples e ótimas ideias.



Vou começar com um elogio pátrio: Considero a organização do tráfego das grandes cidades brasileiras melhor que a de Bruxelas (estou falando, sobretudo, de cruzamentos). Isso se deve ao fato de que, em Bruxelas, carros, bondes, bicicletas, pessoas, ônibus se cruzam nas ruas. Acho perigoso, sobretudo para os ciclistas. Devemos atentar para o fato de que os bondes (conhecidos como trans) têm sempre preferência – até sobre pedestres! 

Mas quando falamos sobre o serviço do transporte público prestado à população, Bruxelas ganha!
Já conhecemos as mazelas do transporte no Brasil...

Então, nesse quesito, qualquer novidade que eu visse por aqui já me alegraria a alma! E eu vi algumas simples e interessantes.

A empresa que controla esse serviço em Bruxelas se chama STIB (Societé des Transports Intercommunaux de Bruxelles). Para começar, a STIB coloca em cada parada de ônibus ou tram (bonde) o nome da referida parada – para você saber onde está – e uma espécie de poste com um cartaz que diz qual linha passa ali (a linha 94, por exemplo) e os horários do ônibus ou do tram. Simples, né?!?!

Você aí que tem aquela parada de ônibus numa rua qualquer, seria legal que houvesse uma placa ali, certo? Ônibus/linha 49, ponto número 87, por exemplo. Ou linha 49, ponto Largo do Machado. Os metrôs são assim, não são? Por que os ônibus não poderiam ser?

Vejamos o meu caso em Bruxelas:

A parada de transporte público da minha casa se chama Brésil (santa coincidência!!! *Risos*), porque fica ao lado da Avenue du Brésil. 

A placa grande informa lá em cima:


1.       Nome: Brazilie (em holandês); Brésil (em francês), só que do outro lado. --- Sim, o país é bilíngue e tudo deve ser escrito nas duas línguas, até o que seria óbvio de adivinhar, como Brasil.
2.       Os sinais “T” e “B”, ou seja: passam trans e ônibus.
3.       As linhas: 25, 41 e 94 (com os nomes das suas referidas paradas finais). Por exemplo, o tram 94 tem sua parada final em Louiza (ou Louise, para os que falam francês).
4.       Os horários: quando você chega mais próximo, na placa de baixo, pode ver, para cada dia do mês, os horários de cada linha!



Simples, né?! Barato, né? Calma... agora vem o melhor...

As paradas mais simples são assim, apenas com essas placas. Mas a maioria delas é melhor do que isso e tem um placar eletrônico que informa em quantos minutos o ônibus ou tram chegará.

Veja essa foto da parada chamada Troon. O ônibus 95, destino Bourse, chegará em 11 minutos. Como se pode ver, nessas paradas mais modernas, há também um mapa da cidade e uma proteção para a chuva.


Não é maravilhoso saber se dá tempo de você entrar ali naquela loja para comprar uma água, sem medo de voltar para a calçada e já ter perdido o ônibus? Não é bom poder calcular o tempo de chegada e o tempo de percurso para avisar aos seus amigos em quanto tempo você chegará na casa deles?

Daí você me pergunta: mas como eles podem informar nesse placar que o tram ou o ônibus chegará em 11 minutos?

Eu digo: é porque eles têm uma espécie de GPS que informa à central onde eles estão naquele exato momento, daí é calculado o tempo que aparece em cada placar eletrônico. Isso é ainda mais certeiro com os trans (bondes), que correm sobre trilhos e quase nunca pegam trânsito – exceto quando há carros na frente deles . (Eu disse que por vezes bondes e carros se misturam).

Agora vem a cereja do bolo! Já que o GPS do tram/ônibus informa à central onde ele está – e daí vem o horário no placar eletrônico – esse mesmo GPS te informa isso no seu celular em casa! Sim, o STIB tem um aplicativo para celulares (smartphones)! \o/

Veja nessa imagem do meu celular: Tram 94 passará na parada Brésil, sentido Louise, em 8 minutos! No outro sentido, Buyl, em 20 minutos.


Você quer ir para Buyl e mora a 5 minutos a pé da parada, mas está fazendo frio lá fora: por que sairia agora de casa se o tram só passará daqui a 20 minutos?! Facilita bastante a nossa vida!  =)

E se eu quiser saber exatamente onde está o tram 94 naquele minuto? É só clicar que o aplicativo irá mostrar: o tram está na parada Delleur.


Os metrôs funcionam da mesma forma, como vocês podem ver nesta foto. Mas, no caso dos metrôs, isso não é novidade alguma. 



A novidade de Bruxelas é que estas informações estão integradas em um mesmo aplicativo para celulares: ônibus, tram, metrô!

Existem os bilhetes únicos aqui, válidos para todos os transportes. E as tarifas são descendentes conforme o número de bilhetes que você compre.
1 passagem só de ida = 2 euros.
Ida e volta = 3,50 euros (1,75 por viagem, já abaixou)
5 viagens = 7,50 (1,50 por viagem)
10 viagens = 13 euros

Além dos bilhetes mensais ou anuais, pelo qual se paga um preço fixo e não há limite de viagem. Fui informada que o bilhete anual custa por volta de 500 euros.

Dentro de cada ônibus ou tram (no caso do metrô fica na entrada da estação) existe uma catraca onde você, sozinho, faz a validação do bilhete. Muita gente não valida, sobretudo no tram: ou seja, está andando de graça.
Mas isso é uma questão de consciência: é melhor comprar o bilhete, e, em tendo comprado, validar esse bilhete (ou seja, gastá-lo nesta viagem e não guardá-lo para uma próxima), para que não haja um possível argumento de falta de recursos para melhorias do sistema.
(Além disso, corre-se o risco dos fiscais: se eles te pegarem lá dentro sem ter validado o bilhete: multa!)


Além de metrô, ônibus e tram, existe a Vélo (um sistema de aluguel de bicicletas, como em Paris e no Rio de Janeiro). Elas são amarelas e têm a flor de Iris, símbolo de Bruxelas, desenhada. Essa flor é símbolo da cidade porque nascia nas margens do rio Sena: sim, o Sena passava por Bruxelas, mas foi soterrado e canalizado.


No entanto, Bruxelas não é tão plana como Amsterdam ou como algumas áreas de Paris: aqui é um pouco mais cansativo andar de bicicleta.

Há quem reclame do transporte público de Bruxelas, porque o metrô não é tão ramificado como a teia de Paris. Então, em algumas áreas da cidade – por exemplo onde eu moro – o metrô não chega. Mas, como eu disse, é tudo interligado. Basta sair do metrô e pegar um tram ou ônibus. Ou simplesmente andar só de tram ou ônibus, se você morar em área não servida de metrô. 

Ah: Cachorros e gatos também podem andar no transporte público daqui!


Depois disso tudo eu digo: adorei !

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Quarto post: Capital da Europa!


Bruxelas, capital da Europa.
Ou, talvez, Bruxelas: a Torre de Babel.
Antes de vir morar aqui, eu não sabia que Bruxelas é a capital da União Europeia.
Se fosse simplesmente uma capital nacional, como Londres, Madri ou Paris, já arrastaria para cá as inúmeras embaixadas, consulados e demais representações que conhecemos. Mas não, Bruxelas além de capital da Bélgica é também capital União Europeia. Aqui estão o Parlamento Europeu, a Comissão Europeia e o Conselho: ou seja, além de todas essas embaixadas e consulados, encontram-se aqui uma miríade de missões e representação junto à UE, escritórios jurídicos, econômicos, organizações internacionais e ONGS. Como se não bastasse, até a sede da OTAN fica aqui.



Disso, você já pode tirar que é difícil encontrar um belga na rua.
Esbarro em espanhóis, franceses, ingleses, húngaros, croatas, romenos, alemães, portugueses, italianos, americanos e por aí vai. E não se esqueçam dos brasileiros: somos uns 40 mil brasileiros vivendo na Bélgica! A maioria em Bruxelas. Já somos tantos que, se fizéssemos parte da União Europeia (algo continentalmente impossível de se supor), certamente inundaríamos de verde e amarelo as ruas daqui.
É graças a grande comunidade de brasileiros e portugueses, que encontro algumas lojinhas especializadas com leite condensado Moça, farinha de quibe, farinha para farofa, pão de queijo, goiabada, feijão, etc. É sempre bom matar saudades.


No caso dos brasileiros, a maioria dos que aqui vem trabalhar atua na construção civil ou nos trabalhos domésticos. Minas e Goiás lideram os estados de origem.
Bruxelas é tão cosmopolita, que é difícil aprender uma língua aqui. Todo dia usamos um pouco de tudo: é espanhol com o gerente do banco, com o caixa de uma lanchonete que, ao olhar para você, já sai falando em espanhol; é inglês quando seu francês vai muito mal; é português de Portugal com algum atendente de loja ou garçom; e o bom mineirês ou goianês com os brasileiros que encontro: isso sim é que mata saudade!
Um amigo meu, que já esteve algumas vezes na Comissão Europeia, assistiu a uma cena inusitada: os tradutores das reuniões estavam em sua pausa do café e conversavam: cada um em sua língua! Sim, um falava em inglês, o outro respondia em espanhol, o terceiro comentava em italiano e o último soltava uma piada em alemão. E eles se entendiam assim! Os tradutores de Bruxelas estão criando uma língua franca entre eles.
Como se vê, não estamos inteiramente imersos no francês (uma das línguas oficiais do país), como estaríamos em alguma cidadezinha da França. Nem estamos inteiramente imersos no holandês (a outra língua oficial do país). E, se quisermos, podemos ir subindo os degraus dessa torre sem falar francês: é só pular do inglês para breves frases em outras línguas.  
O problema é que, uma hora a conta será cobrada. E ela é sempre cobrada quando você mais precisa: por exemplo, quando seu aquecedor quebra e o técnico da manutenção – olha só – não fala inglês... Ou a operadora da Belgacon (a companhia de telefonia, internet e TV) que também diz não falar inglês, nem português, nem espanhol.
Em vista disso, aqui em Bruxelas eu preciso me forçar a falar francês: nada de usar o inglês para ser melhor entendida. Esse é um mantra que nem sempre coloco em prática, mas estou me esforçando.
É aí que entra a Aliança Francesa de Bruxelas, a materialização da Torre de Babel. Esqueça seus cursos de línguas no Brasil, aqueles que você fazia na sua adolescência, onde todos tinham a sua idade e eram nascidos na mesma cidade. Na Aliança Francesa de Bruxelas temos dos jovens aos coroas: todo o espectro da idade economicamente ativa. Ninguém está ali por amor a uma língua, todo mundo precisa aprendê-la para viver no país ou procurar trabalho. Na minha turma nós temos uma romena, algumas espanholas, um grego, uma americana, uma irlandesa, uma eslovena, uma japonesa, alguns alemães; etc. Nós temos até uma belga! Sim, uma belga flamã, da parte de língua holandesa do país. Ela é, certamente, a que tem o melhor francês da turma, mas está lá para dar uns retoques na gramática.
E é ali, naquela sala, que eu vejo a leve animosidade entre os povos. Aquele fogo fátuo já tão antigo... Lembro-me da professora pedir para que trouxéssemos uma piada a ser contada na sala. O alemão se assustou e perguntou se era um exercício para a próxima semana, a professora disse que não: era para a próxima aula. Imediatamente, a espanhola que estava do meu lado riu e me disse: “há, olha o alemão”! Como quem diz: nunca vai conseguir contar uma piada. Por sinal, contra os alemães, houve alguns momentos embaraçosos na sala. Momentos em que eles não achavam graça das piadinhas que eram feitas contra sua nacionalidade.
Foi nessa aula da piada que percebi, na prática, que os conceitos e preconceitos devem ser partilhados entre comediante e público para que haja a graça. Também percebi que nas culturas onde a mãe tem uma presença forte (como a brasileira, a grega, a espanhola e a italiana), existem piadas de sogra. Claro: essas mães estão lá, infernizando os cônjuges dos filhos. Mas nas culturas onde a mãe exerce seu papel e depois se torna distante (como a alemã e até a francesa), as piadas de sogra não fazem sentido. O grego trouxe uma piada de sogra que poucas pessoas entenderam: “Quando um relacionamento acaba pode-se culpar duas pessoas: a mulher e a mãe dela”. A professora não partilhava desses preconceitos e não adiantávamos explicar, ela não entendia.
Gosto também quando a americana percebe que determinada palavra em francês é muito semelhante ao “original” em inglês e a professora diz que não: na certa a palavra francesa veio antes, originária do latim. E começa-se uma pequena discussão entre as duas, na qual é reconfortante olhar para o grego e perceber que ele está rindo delas.


Os gregos estão em um mau momento econômico e seguem imigrando para diversos países europeus, como a Bélgica. Mas eles ainda podem – e sempre poderão – rir de todos nós.




(Happy hour dos "eurocratas" na Place du Luxembourg toda quinta-feira. Ao fundo, o Parlamento Europeu)


(Casal de "eurocratas", na certa cada um de uma nacionalidade, paquerando na Place du Luxembourg)



E um feliz natal da Grand Place para todos!






domingo, 22 de setembro de 2013

Terceiro post: Nós não estamos em tempo de guerra



Ando por Bruxelas e me espanto com a quantidade de placas, estátuas e demais memoriais aos mortos nas duas grandes guerras do século XX (a primeira de 1914-1918; e a segunda de 1939-1945).
Passo na frente de igrejas e vejo listas de nomes em placas de mármore fixadas nas paredes externas, lá em cima: 1914-1918. (Penso: são padres mortos na guerra? Não, me disse uma senhora, são os nomes dos fiéis dessa igreja que morreram em batalha).
Nas ruas, vejo todo tipo de listas e de lembranças. Em uma delas, fixada em um prédio da famosa Avenue Louise, leio que “em pleno dia, em 20 de janeiro de 1943, este prédio, covil da Gestapo durante a guerra de 1940-1945, foi bombardeado pelo fogo vingativo dos canhões do avião do capitão barão Jean-Michel de Selys Longchamps, do primeiro regimento de pilotos da Real Força Aérea”. Lá em cima, o símbolo alado da RAF (Royal Air Force), com a coroa britânica. Olho para a Louise e tento imaginar esse prédio em chamas: não consigo. Tento imaginar as pessoas correndo na neve para fora dos prédios próximos, os aviões passando, tropas marchando: não consigo. Mas as placas estão lá para me dizer que é tudo verdade.



Em frente ao Palácio de Justiça, há um enorme monumento aos mortos das duas guerras. À frente de soldados, cavaleiros e até de cachorros, surge uma enorme mulher alada: a paz, talvez. Ou a glória nacional. Percebo que de todas as guerras que a Europa já travou, essas duas parecerem ter chocado mais: foram 10 milhões de mortos na primeira e na segunda as estimativas variam entre 30 e 60 milhões (sendo metade destes soviéticos)! 




Entre tantas memórias e cicatrizes, me surpreendi quando descobri que até palavras são traumáticas. Explico-me: minha amiga Elaine pegou o elevador do prédio onde mora e viu fixado um aviso de reforma da rampa da garagem. Nele dizia: “Aviso aos ocupantes, a renovação da rampa das garagens começará (... o texto informava datas e tudo mais....) Obrigada pela colaboração”. Mas a palavra “ocupantes” foi riscada à caneta e corrigida por “residentes”; assim como “colaboração” foi riscada e substituída por “cooperação”. Lá em baixo, uma frase: “Nós não estamos em tempo de guerra”.



Ao que tudo indica, os traumas e a vergonha de tantos terem sido colaboracionistas com a ocupação nazista na Bélgica e nos demais países (como a França é um dos exemplos mais famosos) tornou essas duas palavras impronunciáveis: ocupação e colaboração.
Tenho certeza que o morador que rabiscou o aviso do elevador é alguém idoso, que viveu aquilo tudo. Pois nós jovens não fazemos esse tipo de associação, assim como não conseguimos visualizar o prédio da Louise em chamas: é para isso que servem as placas e as canetas dos velhinhos.